Quando eu digo que os mais surpreendentes são os sombrios.

Este é um texto romantizado. Apesar da melancolia vai acabar bem. Talvez não acabe em verdade.

Diário de um detento.

Dia 14.129

Eu inicio o dia perdendo. Acordo 5h30 querendo ter dormido mais. Dizem que eu deveria agradecer por ter emprego, por ter serventia. Mas pergunto, servir a quem quando não se serve a si mesmo?

Passo o tempo me perguntando por que. Sei que tenho a agradecer e tudo mais, mas não é sobre isso que o coração pulsa. O coração carece do que não foi, do que poderia ter sido e do que talvez nunca haverá de ser. Até mesmo esse diário talvez seja somente ladainha de quem tem cabeça vazia de estima e coração cheio de rancor.

Sorrisos de lado, parcerias seletivas, assim vai o dia. Onde encontrar algo pra se apegar? Será que não serei uma ancora pros que gostam de mim?

Eles dizem “Você pode”, eu penso “eu é que sei”

Eles dizem “tem que fazer tal coisa” eu penso não sei se quero”.

Não me olho mais no espelho, no cárcere do meu intimo eles são proibidos, não me enxergo mais e não me reconheço. Não me sinto mais amado, não me sinto mais amável, não me sinto mais amante.

Será que não seria hora de deixar as pessoas seguirem em frente? Será que minha lembrança não seria mais útil do que uma presença que não vai realizar as coisas?

Sempre digo que quem vive, vive pra sempre. Eu acho q com minha vida até aqui até poderei viver pra sempre.

Porque viver como lembrança talvez não seja má ideia.

A tarde vem, pessoas se afastam e nem sei porque. Não sei se é por mim e isso incomoda mais ainda.

Quando tudo isso desenrola vem a noite e na escuridão o dia finda, assim como começou.

Penso que amanhã é outro dia e me dou conta que isso é esperança.

Se a esperança é a última que morre não terá chegado a hora de matá-la?

Talvez não, amanhã é outro dia.

Dia 14.130 na minha vida de detento.

Direto da Penitenciária do meu coração. Na cela da minha mente.

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