Que nome você dá pra isso?

Minha mãe tem 74 anos. Sofreu muito na vida, tanto com saúde quanto com confiar nas pessoas erradas. Hoje, a vida cobra uma conta de quem fuma desde os 10 anos de idade. Para facilitar teu cálculo isso são 64 anos usando a droga lícita que é mais viciante, acredite, que a cocaína, o álcool, o crack e a morfina. São 4500 substâncias agindo no organismo da minha véinha que agora, teve que diminuir seu uso para conseguir respirar. A mãe usa oxigênio em casa com prescrição médica, se um dia não usa fica fraca, não consegue comer direito, tem dificuldade pra ir no banheiro, sente um cansaço terrível.

Até 2019, por muitos anos, a mãe vinha “morrendo”. No aniversário dela em abril ela sempre repetia: “Este é o último aniversário que passo com vocês”! No Natal ela vinha de novo: “Aproveitem a mãe, esse é o último Natal que estou aqui”! E era assim com qualquer data. Um dia entregamos para ela e para minha irmã (que é minha mãe também, mas isso vale um outro texto) um caixinha. Nela, estavam dois sapatinhos azuis de tricô, uma fotinho de um ultrassom, e um papelzinho escrito: “Prazer, eu sou o Joaquim. Vovó e titia, eu vim para mudar suas vidas”!

Trocou o discurso. A mãe começou a dizer: “Não vou viver pra conhecer meu neto”! Quando foi chegando perto do nascimento, ela chegava a dizer: “Vocês falem de mim pra ele”!

Em janeiro de 2019 o Joaquim nasceu, ou seja, ele completa 3 anos esse mês.

Ontem estávamos na casa da mãe e ele estava brincando na garupa da minha irmã, quando desceu, nem pensou duas vezes, olhou pra vovó e disse: “agora na vovó”! Sem pestanejar a vovó simplesmente deu um pulo para a ponta do sofá e disse “vem na garupa da vovó”! Protestei, disse “mãe ele é pesado”, “Filho a vovó não consegue”, “a vovó tá dodói”, mas não me ouviram. Nenhum dos dois. Joaquim subiu nas costas da vovó e a mãe, com a normalidade de quem pede as horas, disse: “alguém me dá a mão pra eu levantar”. Lá estava minha mãe, uma senhora, sofrendo com os males da idade e das doenças, com meu filho, vestido de super-homem, grudado em suas costas.

Claro que a dissuadimos da ideia, por mais nobre que fosse a intenção não dava para deixar aquilo acontecer.

E eu fiquei com isso na cabeça. Com toda essa linha do tempo martelando e tentando entender de onde vem isso, que nome tem isso.

Então termino este texto como comecei: Que nome você dá pra isso?

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