A voz ignorada

Este texto fala sobre depressão, gatilhos e suicídio. Se você tem problemas com isso, te peço que não continue. Escrever é a única forma de me livrar dos meus gatilhos, então te peço desculpas.

Eu tenho alguns poucos gatilhos identificados. Não sei eu realmente entendo o conceito de “gatilho”, mas como sou um estudante de Achismo eu lido com eles com a interpretação que me convém. Um deles e o mais claro para mim é a música “Há tempos” do Legião Urbana. Vou contar o porquê.

Eu tive um conhecido. Não posso dizer que era amigo porque nossos encontros foram pelos caminhos da vida. Tínhamos aquela relação de nos encontrarmos por coincidência, trocar amenidades e era isso. Ele era um cara que se destacava. Falava alto onde quer que estivesse, era o centro das conversas, engraçado, perspicaz, inteligente, enfim era alguém legal de se estar por perto.

Demorei pra acreditar quando me contaram que ele havia tomado veneno e tinha morrido. Fiquei com aquela sensação de que estávamos falando de pessoas diferentes, por que “Ele!? Ele nunca faria isso!”, “Ele era um cara feliz”! Mas bastou a busca no facebook pra entender que não tinha engano nenhum. Era ele mesmo. Ao rolar o feed da página dele, uma dor tamanha toma o meu coração: Ele avisou várias vezes que iria fazer aquilo. Muita gente comentou lá com o clássico “quem quer fazer não avisa” ou “quem fala não faz”. Faz sim. Quem não fala faz também.

Aquilo me impactou de uma forma arrasadora. Não tenho como explicar direito mas posso dizer que isso aconteceu em 2017 e até hoje penso naquele cara. Quando meus gatilhos disparam, volto naquela página e releio as postagens. Não sei porque faço isso, mas faço. Fico com uma impressão e sensação de que poderia ter feito algo mesmo hoje sabendo o que não poderia ter feito nada.

As vezes não somos quem a pessoa precisa. Mas as vezes somos somente o que ela tem.

Conversei várias vezes com ele dentro da minha cabeça, uma mescla de “por que tu fizeste isso”? com “eu te entendo” vai redundando na minha cabeça sem resposta. Vou deixar aqui no final, algo que eu gostaria de falar para ele, onde quer que ele esteja, mesmo que ele não ouça, mesmo que ele não veja e de uma forma até egoísta:

Desculpa cara. Mas eu te entendo. Sei que cheguei atrasado e que toda tua dor não foi compreendida. Sei que provavelmente quem tu querias que te ouvisse, não ouviu, que tu passaste por momentos terríveis dentro de ti até tua derradeira atitude. Sei que foi difícil. Mas queria que tu soubesses que rezo por ti e sempre vou ali te espiar quando me lembro. Enquanto olho ali, fico pensando em quanta coisa diferente poderia ter acontecido. Mas a depressão é um abismo e o caminho é muito solitário. Quero que tu sintas todas as orações sinceras dos que tentaram honestamente te ajudar e que tu não culpes os que porventura deixaram passar.

Espero que sim, que diferente do que se aprende, que Deus te acolha e te cure.

E que não doa mais.